O que um filho ensinou à mãe sobre bullying e coragem.

 

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De vez em quando ainda me dizes para não abrir a porta a estranhos e para apressar o ritmo se alguém se meter comigo a caminho das aulas. Ouço-te contar que a coisa que mais gostas lá na escola é ter porteiro. Que um adulto a controlar as entradas e saídas é muito importante para uma mãe ir trabalhar descansada.

Podes confiar, mãe: lá na escola um visitante também é muito controlado. É obrigado a mostrar identificação quando chega e a levar um cartão ao peito para poder circular.

É por isso que acho que quando eles aparecem, o mundo fica de pernas para o ar. Só quero que o porteiro me deixe fugir e que apareçam visitas em cada recanto da escola. Que todas as grades se afastem para eu poder sair. Quando os vejo, 
só quero tudo aquilo que tu não queres, mãe. Alguma coisa que os faça parar.

Como é que eu te vou contar isto?

Como é que eu te vou contar que é dentro desta escola com porteiro que me gozam, me batem e me maltratam por causa daquilo que tu mais gostas em mim?

Acalma-te mãe, a culpa não é nossa. O mundo, quando eles chegam, é que fica de pernas para o ar (e eu também acredita). Ser bom aluno, ter sardas no nariz e usar calças de bombazine não deve incomodar assim tanto. Às vezes gosto de pensar que a vida destes colegas deve ser mesmo muito complicada e que é por isso que andam sempre a pisar nos outros. Mas a maior parte do tempo, só sinto medo. Medo de ir para escola, medo de lá estar, medo de sair. Medo de adormecer, da noite passar depressa demais e da manhã chegar, com mais medo que me apanhem.

Lembras-te quando vocês me tiraram as rodas pequenas da bicicleta e eu deixei de andar nela, com medo de cair? Disseste que o medo podia ser bom, que deixaria de ser medo quando eu o conseguisse ultrapassar, usando a tua ajuda e um pouco de coragem.

Ouvi dizer que agora há cá na escola um programa de prevenção do bullying. No fim das aulas, se eu for corajoso, podemos falar com um professor que promete não contar nada a ninguém.

Gostava que viesses comigo. O medo ainda pode ser bom, mãe? Se contar o que eles me fazem, fosse tão fácil como pedalar sem rodinhas, amanhã até vestia as calças de bombazine.

 

 

 

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